Investir no mercado de ações ou no setor imobiliário pode ser uma ótima maneira de gerar renda passiva a longo prazo. Mas "passivo" não significa que é sempre suave e tranquilo. Isso porque existem crises financeiras que acontecem em certos momentos do ciclo econômico.

Às vezes, as coisas podem ficar difíceis e os mercados ficam turbulentos antes de se normalizarem novamente.

Em outras palavras, em algum momento a economia está forte e cresce, e em algum momento ela desacelera, às vezes até entrando em recessões ou, pior ainda, em crises financeiras. Isso acontece porque a economia é cíclica.

Neste artigo, discutiremos os aspectos básicos dos ciclos econômicos / de mercado e crises financeiras com base no livro de Ray Dalio, “Principles for navigating the big debt crises” (livro que pode ser traduzido como “Princípios para navegar as grandes crises de crédito”).

Ray Dalio é o fundador e co-CIO da Bridgewater Associates, um dos hedge funds mais conhecidos do mundo dos investimentos.

É importante que todo o investidor entenda como esses ciclos funcionam, a fim de identificar em qual fase do ciclo estamos e ajustar a exposição de conforme.

O ciclo econômico

O que é uma recessão?

Considera-se que uma economia entrou em recessão após 2 trimestres consecutivos de queda do PIB e uma desaceleração da atividade econômica.

Normalmente, as recessões podem ser gerenciadas de maneira bastante simples, com o banco central ajustando as taxas de juros para cima para estimular a economia ou para baixo para frear a economia.

O que é uma crise financeira?

As crises financeiras são muito mais dolorosas que a recessão e se referem a um cenário em que os ativos financeiros perdem grande parte de seu valor.

As grandes crises mais comuns que tivemos no passado foram a Grande Depressão, com a queda do mercado de 1929 e, muito mais recentemente, a crise financeira global de 2008.

Uma depressão, por exemplo, é caracterizada pela queda de 10% ou mais na atividade econômica.

O que causa uma crise financeira?

Crises financeiras geralmente acontecem por causa de crises de crédito. As crises de crédito (ou dívida) acontecem porque pessoas, instituições e países contraem dívidas (crédito) em excesso e não conseguem saldá-las, o que causa atritos no sistema financeiro e econômico.

As fases do ciclo econômico:

Existem algumas fases para as crises, de acordo com Ray Dalio. Vamos abordá-las à seguir.

Fases do ciclo econômico de Ray Dalio
Fases do ciclo econômico
"Principles for navigating Big Debt Crises"

1) Parte inicial do ciclo econômico

Nesse ponto inicial do ciclo econômico, as taxas de juros geralmente são baixas. Como os ciclos são interconectados, o início de um ciclo vem logo após o fim do ciclo anterior. Portanto no início dos ciclos é quando há facilidade de contrair crédito, e as pessoas estão cautelosas.

Com isso, os empréstimos feitos à instituições, pessoas e países, são adequados.

O crédito é usado para gerar produtividade (ex: um produtor de milho que contrai crédito para comprar um trator e ser mais produtivo), que produz renda rápida para o quita essa dívida.

Nesse ponto, a economia cresce mais rapidamente que o crédito, portanto a relação é saudável.

2) Prosperidade e bolha no ciclo econômico

Quase que por natureza humana, quando as coisas vão bem por muito tempo, as pessoas começam a pensar que as coisas continuarão indo bem para sempre. À medida que a positividade começa a dominar o sentimento das pessoas, todo mundo começa a gastar mais.

Essa é a segunda fase do ciclo econômico.

2.a) A euforia toma conta das pessoas:

Como Ray Dalio diz, "o gasto de uma pessoa é a renda de outra pessoa", portanto, porque as pessoas gastam mais, isso faz com que a renda de maneira geral suba.

Como as rendas sobem, o score de crédito das pessoas e instituições também sobe (são cada vez mais consideradas boas-pagadoras). Isso faz com que as pessoas peguem ainda mais crédito, mas agora o crédito não é usado apenas para produtividade, mas também para gastar e comprar ativos financeiros (geralmente de forma especulativa).

Nesse momento do ciclo é muito comum ver pessoas se interessarem pelo mercado financeiro pois viram seu vizinho (que não é tão inteligente quanto elas) ficando mais rico que elas. Isso tudo faz com que os preços dos ativos subam.

Quanto mais os países, instituições e pessoas tomam dinheiro emprestado, mais os bancos emprestam. É um processo que se multiplica.

Um sentimento de euforia toma conta da população, o que gera ainda mais especulação, e todo mundo começa a pensar que os preços dos ativos continuarão subindo, de modo que também começa a haver muitas entradas de capital estrangeiro.

O problema é que a maior parte desse capital destina-se a financiar o consumo, e não os investimentos. Neste ponto, o crédito não é mais saudável. Torna-se perigoso porque existem 2 tipos de dinheiro no sistema: crédito (dívida) e dinheiro para pagar a dívida.

2.b) A situação fica insustentável:

Durante a última fase da bolha, a dívida começa a subir mais rapidamente que a renda. Durante o período pós-Primeira Guerra Mundial da década de 1920, o sentimento de prosperidade havia tomado conta de todos, e todo mundo estava comprando ações com alavancagem, inclusive pessoas que nunca haviam se envolvido nos mercados acionários antes.

Nesse ponto, os preços estavam subindo tão rápido que as pessoas estavam usando crédito para comprar suas ações e, na verdade, obtendo lucro em um curto espaço de tempo.

Em meados dos anos 2000, muitas pessoas estavam se alavancando para comprar casas, porque naquele momento a euforia era tanta que podiam comprar casas com dinheiro emprestado e, alguns meses, vender sua propriedade com um lucro.

O problema é que, quanto mais isso acontecia, mais as pessoas tomavam dinheiro emprestado. Os bancos comerciais estavam fortemente expostos a esses riscos durante os anos 2000 e vendiam produtos de derivativos complexos, como CDO (Collaterized Debt Obligation) e outros títulos lastreados a hipotecas (Mortgage-Backed Securities).

Se você estudar o assunto, verá que por volta do verão de 2007, estava claro que a situação era insustentável. Pois nada sobe para sempre, e que em breve as leis da gravidade apareceriam para corrigir o mercado.

No entanto, se a História nos mostrou algo, é que as pessoas e instituições no geral ficam cegas pela euforia, e ignoram os excessos e riscos.

Alguns bancos de investimentos estavam extremamente expostos (o Lehman Brothers por exemplo estava com um nível de alavancagem de 40:1 ou seja, para cada 1 dólar que o banco investia em derivativos de hipotecas, ele pegava 40 dólares emprestados), o que era visivelmente uma bomba relógio.

A fase de proseridade do ciclo econômico

3) O topo do ciclo econômico

Neste ponto do ciclo econômico, há mais crédito do que dinheiro real no sistema. A situação é obviamente insustentável, portanto os bancos centrais precisam reforçar a política monetária.

Geralmente, os bancos centrais fazem uma de duas coisas: aumentam as taxas de juros e limitam o crédito, ou começam a cortar gastos. Este é o ponto de inflexão.

4) A virada/reversão do ciclo econômico

Essas medidas tomadas pelo banco central fazem com que as pessoas gastem menos e, como já falamos, os gastos de uma pessoa são a renda de outra pessoa, portanto isso faz com que as rendas caiam.

Como a renda cai, as pessoas têm menos dinheiro. Mas como as taxas de juros estão mais altas, isso significa que o valor da dívida (crédito) aumentou e as pessoas se tornam menos merecedoras de crédito, portanto não conseguem mais pegar dinheiro emprestado.

As pessoas não apenas têm menos dinheiro, como também não têm dinheiro suficiente para pagar o aumento da dívida.

4.a) Uma montanha-russa para baixo

Aqui nessa parte do ciclo econômico você vê que as coisas começam a ficar feias: as pessoas começam a vender ativos para pagar suas dívidas. Isso, por sua vez, faz com que os preços dos ativos caiam, o que gera mais vendas, o que faz com que os preços caiam ainda mais.

Nesse momento, as grandes massas entram em pânico e todo mundo começa a vender ativos desesperadamente, o que cria problemas de fluxo de caixa, problemas de liquidez.

Os bancos estão espremidos entre credores que querem seu dinheiro e devedores que não conseguem pagar suas dívidas. Os bancos ficam particularmente vulneráveis pois, como já disse Nassim Taleb, os bancos são frágeis; se um banco quebra, é muito fácil outro banco vir a quebrar também.

Como disse Warren Buffett, o medo é extremamente contagioso, e quando alguns bancos começaram a ter problemas de liquidez, isso reverberou muito negativamente pelo mundo e as pessoas começaram a ir aos bancos sacar seus depósitos.

E qual é o jeito mais fácil de quebrar um banco? É todo mundo querer sacar seu dinheiro ao mesmo tempo. O sistema bancário (principalmente americano) é frágil.

4.b) Os bancos ficam em apuros:

Essa fragilidade existe pois os bancos tem passivos de curto prazo (depósitos à vista) e ativos de longo prazo (hipotecas de 30 anos).

Isso se chama “maturity transformation”, e sinaliza que os bancos estão sempre vulneráveis a problemas de solvência e liquidez. E em 2008 os bancos não tinham tantas reservas de caixa como hoje em dia. O banco Lehman Brothers por exemplo declarou falência, o que gerou ainda mais pânico. É um processo que se multiplica para o lado negativo.

Isso cria uma grande contração econômica, as empresas começam a demitir pessoas, o que aumenta o desemprego. Em 2008, essa situação foi muito grave, porque as casas das pessoas diminuíram significativamente de valor, enquanto a dívida não diminuiu.

Ou seja, como a maioria das pessoas tinha se alavancado para comprar essas casas, essas pessoas agora deviam mais do que o valor da casa que tinham comprado. Pessoas perderam suas casas, pessoas perderam seus empregos.

Outras grandes instituições que são consideradas sistemicamente importantes (instituições que representam grande parte do mercado ou da economia) não podem falir e são socorridas pelo banco central; foi o que aconteceu com a AIG em 2008, por exemplo.

Crise financeira ciclo econômico de 2008

5) Desalavancagem bonita

Podemos ver as fases do ciclo econômico em movimento, pois agora os bancos centrais começam a afrouxar a política monetária para contrabalançar o aperto que aconteceu anteriormente.

Eles começam a diminuir as taxas de juros para estimular a economia. Como há muito crédito no sistema, a medida de reestruturação da dívida também é aplicada, de modo a permitir que parte da dívida seja paga.

O objetivo é desalavancar o sistema. Em outras palavras, para ajudar países, empresas e pessoas a reduzir / pagar suas dívidas de maneira saudável.

5.a) Medidas de desalavancagem

Quando as taxas de juros são baixas ou iguais a 0 (como foi visto nas décadas de 1930 e 2008) e a economia ainda não recuperou, os bancos centrais adotam outra medida para evitar tensões sociais: a impressão de dinheiro, também conhecida como afrouxamento quantitativo (Quantitative Easing).

É quando os bancos centrais compram ativos financeiros (por exemplo, títulos do Tesouro), injetando dinheiro e liquidez no sistema, o que aumenta o preço desses ativos.

Se eles imprimem muito dinheiro, isso pode causar inflação (desvalorização da moeda). Mas, de acordo com Dalio, se houver um equilíbrio entre as medidas de aperto (austeridade, contração de crédito, aumento das taxas de juros) com as medidas de flexibilização (redução das taxas de juros, reestruturação da dívida, impressão de moeda), a inflação não ocorrerá e a inflação taxa de crescimento ultrapassa a taxa de juros.

5.b) Os efeitos da desalavancagem

Agora em 2020 vimos esse afrouxamento quantitativo tomar proporções enormes, com trilhões de dólares e reais sendo impressos tanto nos Estados-Unidos quanto no Brasil.

Nos Estados-Unidos, a economia já mostrava claros sinais de deterioração, e de final de ciclo econômico.

A diferença é que dessa vez, além de comprar ativos, o Governo está entregando dinheiro diretamente para a população, aumentando o dinheiro em circulação M1 e M2.

Atualmente não temos inflação pois a demanda está reduzida e as commodities estão em baixa, mas quando a demanda retomar, isso pode ter efeitos inflacionários.

Quando os bancos centrais não conseguem equilibrar adequadamente essas duas forças, as desalavancagens se tornam difíceis. Segundo Ray Dalio, quando um país tem dívida na sua própria moeda, fica mais fácil fazer a desalavancagem.

Quando a dívida do país está em moeda estrangeira (dólar), a desalavancagem se torna mais difícil pois quanto mais o banco central injeta dinheiro na economia, mais isso desvaloriza a moeda, e mais encarece a dívida.

6) Se equilibrando numa corda

Essa etapa do ciclo econômico ocorre quando as medidas de flexibilização aplicadas pelos bancos centrais não são suficientes para estimular os gastos. Aqui a economia entra em um período de baixo crescimento e baixo retorno sobre ativos.

Os bancos centrais e os governos centrais trabalham juntos para ajustar a política monetária para ajudar a estimular a economia novamente.

O governo central pode aumentar os gastos com bens e serviços através de seus programas de estímulo e benefícios de desemprego.

7) Normalização

Eventualmente, as coisas voltam ao normal e a economia começa a recuperar novamente. Demora alguns anos para que a economia se recupere e comece a crescer novamente.

É possível se proteger durante as crises?

Como vimos, as crises podem ser devastadoras para a maioria. Embora as crises sejam inevitáveis ​​porque a economia funciona em ciclos, é possível proteger-se, tomando cuidado com os sinais de euforia e não contraindo mais dívidas do que o necessário para a geração de produtividade.

A forma mais simples de proteção:

Como Warren Buffett disse uma vez: "Nunca correrei o risco de ficar sem dinheiro (caixa)".

Além de se proteger, também é possível se beneficiar com as crises, lucrando com a queda dos mercados. Dessa forma, o investidor fica numa situação positiva independente do momento do ciclo econômico.

Isso aconteceu diversas vezes na História, quando investidores atentos conseguem ver excessos enquanto o mundo está cego pela euforia.

Assim tomaram medidas de precaução ou antifragilidade para se beneficiar com a contração do ciclo.

Investidores como Warren Buffett são conhecidos por sempre terem uma parcela do patrimônio em caixa para poder aproveitar boas oportunidades.

Ou seja, comprar empresas excelentes quando seus preços estão muito baixos por conta da crise.

Essa medida permite que, uma vez que a economia se normalize e os preços subam, e o investidor lucre com a valorização dos preços de suas ações.

A forma mais elaborada de proteção

Outra forma de se beneficiar das crises é por meio de Opções.

Por exemplo, comprar uma “Put (opção de venda) se você acha que o mercado ou uma ação específica pode cair.

Comprar uma Put quando a volatilidade está baixa e quando o mercado está muito otimista permite que o preço da Put seja bem barato, as vezes centavos.

Com isso, permitindo um ganho exponencial caso o mercado ou a ação de fato venham a cair.

Vimos investidores lucrarem durante quedas de mercado, como por exemplo em 2008.

Alguns investidores apostaram no colapso do mercado imobiliário e se beneficiaram com a queda. Isso foi retratado no filme "A grande aposta" e você pode assistir ao trailer aqui:

Mais recentemente, agora em março, o gestor de fundo Bill Ackman fez uma grande aposta.

Ele apostou $28 milhões na queda dos mercados e obteve um lucro de mais de $2 bilhões em apenas 30 dias.

Claro que esses são exemplos extremos, de investidores com anos de experiência no mercado. De qualquer forma, é possível para o pequeno investidor se tornar antifrágil.

Se você tem interesse em saber mais sobre Opções, o OpLab é a plataforma perfeita para você. Você pode simular estratégias em tempo real, e encontrar as melhores estratégias para lucrar.

Conclusão

Ray Dalio e ciclo econômico

Ray Dalio explica as crises financeiras e econômicas de uma maneira mecânica muito fácil de entender. Crédito em excesso não é saudável, mas crédito escasso também não é bom. Isso porque um nível de crédito adequado e controlado é importante para manter a produtividade crescendo.

O crédito influencia o ciclo econômico e a intensidade de como as oscilações vão acontecer.

O foco deve ser no aumento da produtividade, pois o que faz o PIB crescer no longo prazo é o aumento de produtividade.

É claro que há muito mais detalhes sobre o ciclos econômico do que pudemos abordar neste artigo.

E é por isso que recomendamos que você leia “Principles for navigating Big Debt Crises”, de Ray Dalio, para entender melhor como tudo funciona.

Como falamos também, embora crises sempre vão acontecer, você pode se proteger e se beneficiar do caos e da desordem, principalmente com Opções. Acesse o OpLab e descubra as melhores estratégias para lucrar em qualquer cenário!

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Até a próxima!

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